Na próxima segunda-feira, dia 31 de outubro, o Grupo de Estudos da Obra de Sigmund Freud da Sociedade Paulista de Psicanálise apresenta um debate sobre a obra “Introdução ao Narcisismo”.
Introdução ao Narcisismo
Próxima segunda no fórum: sexualidade feminina
SEXUALIDADE FEMININA
No “FÓRUM DE DEBATES” de SETEMBRO
19/09/2011 (segunda-feira) – das 19h às 21h
A Sociedade Paulista de Psicanálise promove mensalmente o “Forum de Debates”, com temas diversos e atuais com o intuito de trazer a tona reflexões sobre questões cotidianas. No debate deste mês, Sexualidade Feminina, o objetivo é identificar:
- Primórdios das Manifestações da Sexualidade Feminina
- A Relevância da Relação Pré-Edipiana
- Os Efeitos da Castração: 03 possíveis consequências
- Abertura para o Desenvolvimento da Feminilidade;
- Saída Edípica: Equação Simbólica Pênis-Bebê
- Leitura Lacaniana do Édipo
- Lacan: “A Mulher Não Existe”
- A Maneira Própria de Amar na Mulher
- O Que quer uma Mulher?
Coordenação: Vera Lucia Muller Ando
Apresentação por Profa. Dra. ALICE BEATRIZ B. IZIQUE BASTOS:
Doutora em Psicologia da Educação pela Universidade de São Paulo, com formação em Psicanálise pelo Instituto de Pesquisas em Psicanálise (IPP) da Escola Brasileira de Psicanálise. Profa do curso de Pós-Graduação em Psicopedagogia da Universidade Gama Filho e da Universidade Metodista de São Paulo, e autora do livro “A construção da pessoa em Wallon e a constituição do sujeito em Lacan”, publicado pela Editora Vozes, em 2003 e co-autora do livro “Henri Wallon: Psicologia e Educação” publicado editora Loyola, em 2001.
Investimento: R$15,00 para associados e R$30,00 para não associados.
Dirigido ao público em geral
Inscrições: antecipadas na secretária com Beth.
De 2ª a 5ª, das 14h30 às 20h30.
Local: Sociedade Paulista de Psicanálise – Rua: Humberto I, 295 – Vila Mariana – Tel.: 5539-6799 – sppsic4@terra.com.br
Inscrições abertas até 16/09/10 Vagas Limitadas
A psicanálise e o esvaziar-se de si
“A palavra foi dada ao homem para encobrir seu pensamento”, Stendhal
Por André Toso
Entre as inúmeras contribuições da psicanálise para a humanidade, talvez a que mais se destaque é a abertura da possibilidade de escutar o outro. A figura do analista representa um esvaziar-se de si mesmo e abrir-se para as inquietações, conflitos e, fundamentalmente, para o discurso do paciente. Para tanto, é necessário que o analista deixe do lado de fora de seu consultório todas as suas opiniões morais e escute as demandas do paciente sem julgamentos ou concepções pré-definidas. É ouvir o outro em sua inteireza, de forma depurada e sem misturar-se com o que é falado. É ouvir por ouvir, sem a ansiedade de uma resposta que se enquadre em um diálogo. É ouvir sem sequer pensar em construir um diálogo racional. O diálogo se constrói por si mesmo, nas entrelinhas, sensações e naturalidades da fala do paciente. É essa fala do paciente que leva à resposta do analista, como num eco. Não se trata de um diálogo construído: trata-se de um diálogo que simplesmente nasce em si mesmo.
Por isso mesmo, o psicanalista inglês Donald Woods Winnicott (1896-1971) diz que a sessão psicanalítica é um momento sagrado. Sagrado, pois consiste em uma tentativa de encontrar a verdade que não está nas palavras e sim na essência do que é cada ser humano. A verdade que não pertence nem ao analista nem ao paciente. A verdade que pertence à própria experiência humana. Uma verdade intangível, que se estabelece diante da singularidade de cada um e escapa a teorias ou enquadres. Uma verdade que transcende – própria da experiência de cada paciente. Uma verdade que nunca é totalmente revelada, mas pode ao menos ser parcialmente iluminada.
Uma boa análise objetiva libertar o paciente de suas próprias amarras fantasiosas e das amarras do meio social em que ele vive. É libertar o paciente do discurso do Outro – como diria Jacques Lacan (1901-1981) –, do discurso dos pais e mães. Mas esses pais e mães ultrapassam em muito a barreira familiar e não são apenas os biológicos. A psicanálise busca libertar o paciente do discurso do poder, das instituições, tradições, imposições e até mesmo das leis que regem a vida social. É libertar o paciente do discurso inventado pela própria história humana. É desintoxicar a mente do excesso de discurso, do excesso de palavras, do excesso de regras estabelecidas que se estendem ao longo da trajetória humana. O papel da psicanálise é reinventar a experiência humana contestando tudo que até então foi imposto ao sujeito pelo discurso externo. É limpar os signos e símbolos em excesso que sufocam o humano e lhe tiram seu caráter misterioso, subjetivo, essencial e quase místico. A psicanálise trabalha com a palavra narrada para desgastá-la a ponto de ela perder sua importância central e restar apenas a essência. A palavra – que muitas vezes cega – é substituída pelo sentir.
É esse sentir que levará o paciente a criar sua própria ética. Uma ética que não responde a instituições ou regras estabelecidas, mas que ecoa dentro de sua essência. Uma ética que dispensa a obrigação e o apalavrado – que é essência em si mesma. O paciente, ao estar diante de um analista que se esvazia para contê-lo, aprende também a esvaziar-se para conter todos que o cercam na comunidade. Aprende a olhar o outro sem barreiras morais, respeitando as singularidades, experiências e vivências de cada um. Um ser humano analisado aprende a respeitar o espaço de si e do outro, separando o seu querer e poder do querer e poder do outro. Ele aprende a delimitar-se na relação com o outro, respeitando-o e sabendo instintivamente que para construir-se é preciso do outro, mas que esse outro também está ali para construir-se com ele. Esse paciente aprende a olhar a si e ao outro respeitando o mistério da experiência humana. Respeita-se a si, respeita-se o outro e respeita o próprio mistério do existir humano. É um ser que consegue esvaziar-se de si para acolher o outro. É alguém preparado a conviver com unidade e em comunidade.
Patologias do desvalimento: o vazio do não ser
Autor: Olivan Liger
Colaboração: Clarisa Junqueira Coimbra
Introdução:
Nessa primeira década do século XXI, ao lado de inquestionáveis avanços tecnológicos nas diversas áreas da saúde, a Psicanálise se defronta cada vez mais com um mal-estar cuja incidência nos consultórios aumenta a olhos vistos. Algo novo no seu campo de saber? Não. Porém, o que nos alerta é justamente o número de pacientes com queixa muito similar, e que muitas vezes tem sido diagnosticados com algum equívoco, baseados em critérios duvidosos de co-morbidade, conduzindo a tratamentos inadequados que resultam no abandono do tratamento pelos pacientes que não se sentem atendidos em sua demanda.
O divã além da porta
Texto retirado do site do psicanalista Jorge Forbes (CLIQE AQUI PARA VISITAR) e publicado na revista Psiquê.
“Vocês ponham o divã virado para a porta. Se o paciente quiser sair sem olhar para vocês, ele simplesmente se levanta, abre a porta e vai embora”.
Língua, Linguagem e Psicanálise
No “FÓRUM DE DEBATES” de Junho
20/06/2011 – das 19h às 22h
A Sociedade Paulista de Psicanálise promove mensalmente o “Fórum de Debates”, com temas diversos e atuais. No debate deste mês, Língua, Linguagem e Psicanálise:
Com esse tema, pretendemos trabalhar com os conceitos de língua e linguagem – enquanto formações simbólicas -, inspirados na linguística moderna fundada por Ferdinand de Sausurre, fundamentais para as releituras lacanianas da obra de Freud. Entre as contribuições, a de que um paciente jamais dirá algo que não esteja contido no sistema de sua língua. Entretanto, muitas confusões ocorrem por conta de imprecisões de conceitos. Propomos dialogar com a Linguística explorando as dicotomias saussurianas fundamentais, quais sejam, Língua/Fala; Significado/Significante; Diacronia/Sincronia; Sintagma/Paradigma. Todas elas noções essenciais para a compreensão das operações de construção do pensamento, sustentação do seu encadeamento e produção de sentido. A epistemologia discursiva atual que legitima a interface da semiótica com a psicanálise, foi gerada nesse nascimento da linguística saussuriana.
Freud ao propor o “tratamento pela fala” (talking cure) reconheceu na palavra o seu poder mágico. Essa sua tese, desde 1890, nunca foi abandonada, tendo sido essa sua aguda observação o fator relevante para o abandono do método hipnótico, abrindo o caminho para a construção do método psicanalítico. Com isso, Freud se abre para a singularidade do sujeito, para a fala do paciente, resgatando o poder mágico da palavra que se origina na psique. A plasticidade das conexões inconscientes, ora por deslocamento ora por condensação em relação a representação da coisa, não seguem os mesmos mecanismos da língua? Não é afinal a investigação psicanalítica uma arqueologia do sentido, como definiu J. Birman relendo Freud?
Apresentação: Clarisa Junqueira Coimbra,
Psicanalista, comunicóloga e semioticista licenciada pela Université Catholique de Louvain-UCL, Bélgica, e pós-graduada pela FFLCH da Universidade de São Paulo, Departamento de Lingüística. Atualmente faz atendimento clinico em consultório particular e desenvolve projetos editoriais para publicações de arte da Editora Via Impressa.
Investimento: R$15,00 para estudantes / R$ 30 para não estudantes
Dirigido ao público em geral
Inscrições: antecipadas na secretaria com Beth
De 2ª a 5ª, das 14h30 às 20h30.
Local: Sociedade Paulista de Psicanálise – Rua: Humberto I, 295 – Vila Mariana – Tel.: 5539-6799 – sppsic4@terra.com.br
Inscrições abertas até 17/06/11 Vagas Limitadas
Análise: A Po-ética na Clínica Contemporânea (Gilberto Safra) II
ANTES DE LER ESSE TEXTO, LEIA AQUI A PARTE I
INTRODUÇÃO – PARTE 2
Na segunda parte da introdução, para explicar como se baseou para escrever sua obra, Safra fala sobre a importância dos filósofos, escritores e pensadores russos do século XIX, que tinham como objeto de trabalho a ética humana e os sofrimentos decorrentes de seu esfacelamento. O autor considera que temos muito a aprender com esse pensamento russo, já que em nossa época parece ocorrer quebra semelhante do ethos humano (ethos, do grego, significa valores, ética, hábitos e harmonia). Na clínica, o terapeuta é informado, por meio do sofrimento de seus pacientes, desse mal-estar que acomete nosso tempo.
Safra destaca a paixão do povo russo pela filosofia e de como as questões da existência humana fazem parte do dia-a-dia desse povo. Para exemplificar de onde isso surge, cita as aldeias chamadas de mir, que ocupavam o solo russo em uma época antiga. Mir significava, ao mesmo tempo, povoado, mundo e paz. Tratava-se de uma vida comunitária, a vida de um dependia intrinsecamente da vida dos outros. Por ser uma comunidade rural, a ligação desse povo com a terra era extremamente fundamental. Por isso, para esse povo, era impossível de pensar no ser humano sem o enraizamento na terra, sem considerar a importância do trabalho que a transforma e faz surgir as coisas e sem a convivência com outros seres humanos. Isso tudo forma o ethos humano, que possibilita mir: mundo, paz, aldeia, comunidade.
Outro fator fundamental da unidade russa foi a escolha da religião que seria oficialmente adotada. Segundo a tradição, o Príncipe Vladimir enviou diversos emissários que viajaram com o propósito de encontrar a religião verdadeira que seria adotada na Rússia. Retornaram e descreveram o que viram. A escolha pelo Cristianismo teve o seguinte argumento: eles haviam presenciado diversos cultos religiosos, mas nenhum podia ser comparado com a liturgia na Catedral de Santa Sofia, em Constantinopla (atual Istambul). Segundo eles, a beleza ali era de tal ordem que Deus deveria estar lá. O critério da verdade religiosa, portanto, foi a beleza. E isso ficou impregnado no pensamento russo, e aparece em Dostoievski quando ele afirma que “a beleza salvará o mundo”. Segundo Safra, a beleza, a verdade e o bom são, para o pensamento russo, facetas de um mesmo acontecimento e integram o ethos.
Um olhar para a condição humana
Outro fator histórico fundamental para a criação da tradição russa ocorreu mais tarde, com Pedro, o Grande. Ele considerava a Rússia isolada da cultura europeia e desenvolveu um projeto de abertura de fronteiras. Isso ocorreu com a construção de São Petersburgo. Diante disso, o pensamento russo se dividiu em dois: o eslavofílico e a inteligentsia. Os primeiros eram nacionalistas que queriam preservar a cultura russa da invasão estrangeira e viam o país como salvador do mundo. Já os segundos acolhiam as ideias ocidentais e ansiavam pela queda do Império e a construção de uma nova nação. Iniciavam, assim, a importação do marxismo.
Os autores que Gilberto Safra se apóia neste livro são da inteligentsia, pensadores que estavam preocupados com a questão social e política da Rússia, mas que, conforme a revolução se formatava, ficavam desencantados e desistiam de algumas ideologias para pensar mais sobre a condição humana em si. Exemplos são Fiódor Dostoiévski, Lev Tolstoi, Vladimir Solovyov, Nikolai Fedorov, Pavel Florenski, Nikolai Berdaiev, Sergei Bulgakov, entre outros. Esse pensamento russo ficou conhecido como Idade da Prata e serve como referência para a obra de Gilberto Safra, que explica porque eles são tão fundamentais para entendermos nosso tempo:
“Esses autores testemunhavam o esfacelamento cultural que ocorria na Rússia no final do século XIX e no início do século XX e o decorrente adoecer humano. É frequente encontrar em seus escritos a preocupação com o futuro da humanidade, pela condições anti-humanas que pareciam intensificar-se com o passar dos anos. Nos textos desses autores são discutidas essas questões presentes não só na Rússia do início do século XX, como também, em tom profético, os problemas de nosso tempo, em que a natureza humana se estilhaça”
Segundo Safra, a obra desses pensadores recolhe e emoldura a face humana, explicitando o ethos. Eles evitam abstrações racionalistas e criam uma obra resistente à fragmentação da medida humana. Discutem o registro ontológico, existencial do ser humano. Por isso, seus escritos são eternos.
O excesso de razão adoece o homem
De acordo com Safra, o estudo desses autores foi fundamental para que ele enxergasse o sofrimento humano com uma profundidade que ele desconhecia. Para ele, os pacientes que o procuram na atualidade apresentam um tipo de sofrimento que demanda uma modificação na maneira como se conduz o processo terapêutico. Ele explica:
“Cada vez mais nos deparamos na clínica com um tipo de problemática humana que nos coloca, como foco e com urgência, o restabelecimento do ethos, o que nos leva ao estabelecimento de uma situação que possibilite o acontecer da condição humana a partir da compreensão daquilo que é ontológico no ser humano. É uma clínica que exige que o profissional possa estar situado no registro ético-ontológico, a fim de que possa ouvir a dor de seu paciente no registro de seu aparecimento”
De acordo com Safra, esse lugar é necessário para que o psicanalista situe-se à frente das queixas de seu paciente, mas sem reduzi-las ao já conhecido, ao simplesmente psíquico. Sem tentar teorizá-las ou apresentar receitas prontas e mágicas. Para o autor, na atualidade, em decorrência da fragmentação do ethos, o tipo de sofrimento da clínica não é apenas decorrente de uma dinâmica psíquica, mas de situações que reclamam a necessidade da constituição do si mesmo e da constituição do psíquico e o re-estabelecimento da ética na situação analítica. Ao ouvir seus pacientes, Safra constatou o mesmo sofrimento dos pensadores russos do século XIX.
“Muitos de nossos pacientes sofrem pelo desenraizamento, pelo fato de terem sido coisificados, reduzidos a ideias ou abstrações. Na atualidade, encontramos pessoas que são filhos da técnica e que sofrem da agonia do totalmente pensável”
Para Safra, os pensadores russos já alertavam para a impossibilidade de reduzir o ser humano em teorias, pois ele jamais poderá ser plenamente revelado ou explicado. Trata-se de uma questão ética, pois tentar enquadrar o ser humano em comportamentos padrões pode adoecê-lo profundamente, criando uma lucidez insuportável, um excesso de claridade. A condição humana acontece no enigmático, no obscuro, no indizível, no mistério. Portanto, analista em dúvida é analista ético. Safra explica sobre o perigo do totalmente pensado:
“Desde o racionalismo, o projeto intelectual do Ocidente tem sido teorizar sobre o ser humano, suspendendo sua condição enigmática e reduzindo-o a uma ideia, uma coisa, a um objeto, a um conceito. No entanto, frente a qualquer tentativa de apreensão intelectual, o homem é um ser que por sua própria natureza desconstrói qualquer formulação racional ou teórica. Compreender o homem através de qualquer conceito universal, seja o econômico, a sexualidade, ou a vontade de poder, é compreendê-lo por meio de uma abstração que o adoece e que instaura uma situação de barbárie silenciosa e imperceptível, que na maior parte das vezes só será compreendida em sua magnitude após muito tempo, quando seus efeitos já forem inegáveis”
A psicanálise está adoecida
Safra explica que essa tentativa de explicar o fenômeno humano cria a chamada hiper-realidade. Trata-se da criação de falsas realidades ou simulacros, que passam a determinar e organizar o viver humano. Toda hiper-realidade constitui o falso e o aparente, o que leva o ser humano ao desenraizamento de seu ethos. M. Epstein, em seu livro After The Future, afirma:
“A inteira vida da sociedade torna-se uma auto-apresentação vazia. Nem partidos políticos ou empresas são realmente criados, mas sim conceitos de partidos e empresas. Incidentalmente, a área mais real, a econômica, é até mais simulada do que todas as outras”
A criação dessas hiper-realidades, segundo Safra, propicia o aparecimento de falsos-selfs, personalidades simulacros, entre outras. No lugar do rosto, instaura-se a máscara.
“O rosto apresenta o mistério, enquanto a máscara, a objetificação. O rosto assinala que o homem nasce como uma indagação, que se desdobra ao longo da vida e que jamais é respondida. Ser indagação é acordar surpreendido pelo destino humano. O mistério coloca-se frente ao homem, com as questões do nascer, do outro, do convívio entre outros, da geração, da precariedade da vida, da morte e da pergunta que sempre se renova”
Na clínica contemporânea, constata Safra, as pessoas chegam para análise em desespero profundo por não encontrarem o rosto em si e no outro. Vivem como máscara entre máscaras e, no momento que a retiram, há um nada. Frente ao outro se perguntam: há alguém atrás dessa máscara? Essas são as agonias que testemunham as hiper-realidades. Esses pacientes clamam pela possibilidade de vir a formular as questões do destino humano. De acordo com o psicanalista, elas vivem na agonia do terrível, aspirando pelo sofrimento. Uma coisa é a agonia do não-ser. Outra é a oportunidade de sofrer em decorrência dos acontecimentos inerentes ao destino humano. Sofre apenas aquele que se apresenta rosto frente a outros rostos. Quem está de máscara apenas agoniza.
Por fim, para fechar a Introdução e seu pensamento, Safra afirma, com preocupação, que a própria psicanálise está adoecida, pois na maior parte das vezes está assentada sobre hiper-realidades. É preciso rever a atividade clínica, que deve estar ancorada no mistério e posicionada sobre o ethos humano. Safra, no fundo, propõe um aprofundamento ligado à frase dita por Freud: “Aonde quer que eu vá, eu descubro que um poeta esteve lá antes de mim”. É na subjetividade poética que o mistério da condição humana é celebrado. Safra, por isso mesmo, fecha o capítulo com um poema de Mário de Andrade que resume um pouco a condição humana:
Esse homem que vai sozinho
Por estas praças, por estas ruas,
Tem consigo um segredo enorme
É um homem
Essa mulher igual às outras
Por estas ruas, por estas praças,
Traz uma surpresa cruel,
É uma mulher
A mulher encontra o homem
Fazem ar de riso, e trocam de mão,
A surpresa e o segredo aumentam.
Violentos.
Mas a sombra do insofrido
Guarda o mistério da escuridão.
A morte ronda com sua foice.
Em verdade, és noite.
Análise: A Po-ética na Clínica Contemporânea (Gilberto Safra)
Iniciamos neste espaço uma análise de livros sobre psicanálise. O primeiro escolhido é o terceiro livro do psicanalista Gilberto Safra, uma das obras mais impressionantes da atualidade. Safra é um pensador que domina a psicologia, a psicanálise, a filosofia e apresenta uma forte influência da literatura. Neste livro ele propõe uma nova visão da clínica contemporânea, mais do que necessária para a complexidade dos pacientes dos tempos de hoje. Analisaremos o livro capítulo por capítulo. Hoje começamos a Introdução, importante para entender a ideia geral do pensador. No início da próxima semana pretendemos colocar a parte dois dessa Introdução.
INTRODUÇÃO – Parte 1
“A aparência se adere ao Ser, somente a dor pode arrancá-lo da aparência. Os opostos não são o prazer e a dor, mas sim suas respectivas espécies. Existe um prazer e uma dor infernais, um prazer e uma dor curativos, prazer e dor celestes”, Simone Weil, em Cuadenos
Safra inicia o livro contando a história de Mário, um garoto de quatro anos que se sentia desalojado do mundo, distante dos amigos e impossibilitado de brincar. A mãe, percebendo a situação, decide levá-lo a um analista. O terapeuta em questão guardava em sua sala brinquedos e materiais para as crianças que atendia. Mário, logo que chegou, pegou uma bacia cheia de água, jogou nela um soldadinho de plástico e, mexendo com um lápis, formou um redemoinho. Um redemoinho de angústia. Olhou de forma dolorosa para o terapeuta e, com voz sussurrante e longínqua, gritou: “Socorro, Socorro”. Surpreso, o profissional logo percebeu que apenas testemunhar tal dor não era suficiente: era necessário agir.
Com outro soldadinho, o terapeuta chegou à beira da bacia com o intuito de alcançar o soldadinho do menino. Mário, no entanto, pegou o soldadinho do terapeuta e o jogou dentro do redemoinho. O terapeuta entrou na fantasia e também gritou: “Socorro, Socorro”. Os dois soldadinhos giravam no mesmo redemoinho de angústia. Mário pensou um pouco e pegou um terceiro soldadinho e um pedaço de madeira. Foi ao encalço do soldadinho dele e do soldadinho do terapeuta. A madeira se transformou em balsa. Safra explica: “Esse menino desvelava com seu terapeuta o que necessitava, o que precisava ser estabelecido para que uma viagem pela existência fosse possível. Nascer? Só com uma balsa. Ele mostrava com precisão as dimensões de seu sofrimento e a maneira pela qual o outro podia ir a seu encontro para auxiliá-lo a atravessar o impasse no qual se encontrava”.
Angústia é conhecimento instintivo
Para Safra, situações como essa surgem diariamente no trabalho clínico. Muitos pacientes, independente da idade, demonstram um conhecimento de si que parece brotar da angústia mesma, que revela as dimensões do sofrimento e da fragilidade humana. Esse conhecimento não é aprendido, ele ocorre pelo próprio fato do ser humano ser jogado em meio à existência na busca de condições que possibilitem seu alojamento – mesmo que precário – no mundo com os outros. Em sua solidão essencial, o ser humano precisa ser acolhido no abraço e no olhar de alguém para que um iniciar-se aconteça. É aí que existe a possibilidade de vir a ser. O homem, portanto, vive sempre na fronteira entre o ser e o não ser. Safra explica:
“O homem se encontra na fragilidade do entre: entre o dito e o indizível, entre o desvelar e o ocultar, entre o singular e o múltiplo, entre o encontro e a solidão, entre o claro e o escuro, entre o finito e o infinito, entre o viver e o morrer”.
Para Safra, é pela fala que o ser humano pode desvelar quem ele é e o que vive. O dizer ao revelar também vela, pois o viver humano não pode ser plenamente dito; entre o dizer e o indizível emerge o falar poético. Na clínica, o terapeuta testemunha esse falar em que a palavra não se fecha, mas se abre para o não dito.
Mistério é liberdade
Na análise, sentimo-nos desnudados, mas é importante que a visibilidade ali não seja exercida de modo que se perca o mistério e o segredo sobre o que é o ser. Um olhar fechado – onisciente e aprisionante – deve estar longe da clínica. É preciso respeitar os mistérios do existir. O paciente deve ser encontrado e não devorado. Para Safra, é preciso encontrar um meio termo, um “entre” nessa situação. Safra, de maneira brilhante, explica sobre a agonia do totalmente indizível e também do totalmente pensado:
“A queda plena no indizível, no oculto, na solidão, no escuro, leva o individuo às agonias impensáveis, ao sofrimento sem morte, ao fora absoluto que o torna andarilho sem sombra. Por outro lado, o deslizamento para o dito, para o desvelamento, para o mundo, para o claro, leva-o ao encarceramento na imanência e à morte da coisa. É a agonia do totalmente pensado”
Safra exemplifica isso com uma criança de cinco anos que ele atendia. Em um diálogo sobre o medo, a paciente, instintivamente, formulou uma das grandes questões humanas:
- Eu tenho medo de ladrão, de fantasma e da morte dos meus pais. – ela disse.
- Mas qual é o seu maior medo? – perguntou o analista.
- Meu maior medo é entrar no quarto escuro e lá pode ter um ladrão escondido.
Um tempo de reflexão e ela volta atrás:
- Não, não é isso… O ladrão fui eu que inventei, eu tenho medo puro… É mais fácil ter medo do ladrão do que ter medo puro.
O medo da menina era a queda no escuro, a queda no nada…
De acordo com Safra, a impossibilidade do acontecer humano – seja pelo excesso de claridade ou de escuridão – leva o individuo a um sofrimento enlouquecedor. Não se trata, portanto, apenas de um problema psíquico ou de um conflito pulsional, mas algo que se refere à própria ontologia do existir humano. O encontro com a balsa, descrito no início desse texto, possibilita habitar o mundo, pois existe outro para lhe auxiliar na caminhada. Isso possibilita um conhecimento sobre a ética do ser, que não é aprendida, mas se constrói na relação com o outro. É preciso ter elementos para morar no mundo entre os outros. É preciso construir uma ética para tanto.
A quebra da possibilidade da construção desses elementos leva a um sofrimento que – apesar de alcançar o registro psíquico – não tem origem no psíquico. São os sofrimentos que acontecem no registro ontológico, no próprio existir. A clínica, portanto, caracteriza-se pelo cuidado que permite estabelecer as condições necessárias ao acontecer humano. A clínica é ética. Safra estabelece assim uma preocupação com a técnica em detrimento dessa ética:
“Nessa perspectiva, cai por terra toda concepção que busca definir a situação clínica a partir de procedimentos técnicos. A técnica, assim compreendida, joga o paciente em direção ao conceituável, roubando-lhe o indizível e os mistérios de seu ser. Esse é o homem-coisa e não mais ser, não mais presença”.
O cuidado ético citado por Safra, que permite o surgir do si mesmo no paciente, é reconhecido por uma experiência de qualidade estética, de encanto, de júbilo, de sagrado. A ética se desvela como beleza, como presença de si e do outro. O individuo que está no mundo dispõe de um olhar ético que lhe permite reconhecer as condições inóspitas para o ser humano por um conhecimento decorrente da maneira como aconteceu sua entrada no mundo. As condições necessárias ao acontecer e à presença humana estão ligadas com essa ética. Para Safra, é preciso uma crítica às situações do nosso tempo para com essa ética do ser para possibilitar que o homem se situe no mundo e tenha condições de vir a ser. A clínica, que é a própria ética representada, deve ajudar a construir essa possibilidade.
EM BREVE, PARTE 2
Sugiro o contato com o pensamento de Gilberto Safra. VEJA O SITE DELE AQUI.





